Deu-me para ler #1: A arte da vida

Um livro, 15 dias para o ler e um desafio: fazer uma review de algo que é completamente fora do género de tudo aquilo que alguma vez li. A busca da felicidade na sociedade moderna tem sido o tópico central da minha vida desde o lançamento deste desafio.

Quem me conhece sabe perfeitamente que detesto “comer” livros, lê-los só por consumo ou por obrigação. Mais ainda, odeio ter prazos para os ler. Acho que cada pessoa tem o seu ritmo e eu sou daquelas que precisa de desfrutar de cada página que um livro tem. E o que aconteceu? O desafio desta semana veio para me testar. De uma lista de 6 livros que são todos completamente fora dos meus gostos (ou deverei dizer hábitos?) de leitura, tive que escolher um para fazer uma review. O livro A arte da vida foi o que, daquela lista, me captou mais a atenção.

Quando o desafio foi lançado tive vontade de rogar umas quantas pragas aos meus professores, (desculpem!) confesso. Ler algo tão intenso como é este livro – que relata um estudo sociólogo sobre a busca da felicidade na sociedade contemporânea – em apenas 15 dias, para mim, é como se me tivessem condenado a uma sentença de morte. Detesto consumir livros e não tirar partido deles. E acho que, no fim, acabou por me prejudicar o facto de ter tido pouco tempo para o ler mas, por outro lado, este foi um pretexto para me deixar com vontade de o reler posteriormente, com mais tempo.

Arte da vida (1)

Passando ao que interessa, este livro de Bauman pretende explicar porque é que a busca pela felicidade ocupa grande parte do tempo da sociedade contemporânea. Para isso, ele aborda perspetivas de diversos autores e temas, passando desde Stuart Mill até ao sucesso dos reallity shows. Numa primeira fase, o livro faz-nos a refletir sobre o facto de a procura pela felicidade estar a ser esquecida e substituída pelo consumo e as necessidades que temos de consumir, o que, mais precisamente, nos leva a pensar sobre o que há de errado com a felicidade. Em termos práticos, este tema tem toda a relevância na nossa atualidade. Quem de nós, homens ou mulheres, não se sente mais feliz quando compra aquela peça de roupa que andava a namoriscar há que tempos? Por algum motivo dizem que um bom saco cheio de compras é a solução para curar tristezas. O problema desta felicidade é que ela é momentânea e atribuída a algo que, com o tempo, perde o significado e pior, acaba por se degradar e ir parar ao lixo. E aí? Voltamos à estaca zero da nossa busca pela felicidade.

Quantas vezes nos gabamos de agir moralmente, de fazermos tudo consoante as “normas e padrões” predefinidos? Se não formos nós a fazê-lo, com certeza que temos amigos que se gabam disso. E este livro fez-me contradizer tudo aquilo que pensava sobre este aspeto. A verdade é que nós agimos moralmente sempre com um intuito, temos sempre em conta o retorno que vamos receber pelas nossas ações. Esta é a mais pura das verdades. Não fazemos nada apenas porque é correto ou porque fica bonito. Os escuteiros, por exemplo, seguem os lemas do bom escuta e praticam as boas ações porque isso lhes é incutido e quase que obrigado. Mas então como é que sabemos se eles estão a ajudar a velhinha a atravessar a passadeira apenas porque ela tem dificuldades? Será que não estarão apenas a cumprir o seu dever? Então a moral é uma farsa! Quer dizer, então somos uma cambada de hipócritas gabarolas que apenas agimos moralmente porque queremos algo em troca e criticamos quem não o faz.

Bauman diz que a vida é uma obra de arte, daí o nome do livro. E para mim, enquanto estudante de Relações Públicas, isto fará todo o sentido na minha vida daqui para a frente. Também eu, desde que iniciei o curso, iniciei também a minha procura pela felicidade e comecei a pintar a obra que se tornará na arte da minha vida. Com toda a felicidade que esta profissão me trará, tanto como a tristeza, moldarei a minha tela com as cores e as formas que melhor se adaptam às ocasiões e aos momentos. No fundo, a busca pela felicidade e a arte da vida aplicam-se a todas as áreas e profissões, se não for na busca pela felicidade, será na busca por outra coisa, porque somos insaciáveis e estamos sempre atrás de algo, porque a nossa obra de arte está sempre incompleta.

A experiência de ler este livro não foi propriamente a melhor que já tive, a falta de tempo e a diferença de género literário a que estou habituada não ajudaram muito, mas no final de contas, posso afirmar que foi uma experiência positiva e que me fez refletir sobre a forma como procuro a minha própria felicidade. Houve algo que me fez pensar, que é a responsabilidade que tenho sobre o outro. Há toda uma reflexão que é feita em torno do facto de a responsabilidade que eu tenho sobre mim mesma ser insubstituível e que, por outro lado, a responsabilidade que tenho sobre o outro pode ser substituída. Vejamos, os pais quando os filhos nascem, criam-nos e educam-nos, sendo responsáveis por eles, mas a partir de dado momento eles seguem as suas vidas, a responsabilidade sobre eles próprios só a eles diz respeito. Foi importante realçar isto pelo facto de existirem muitas pessoas que vivem a sua em função de satisfazer os outros ou de agradar à sociedade, esquecendo-se do seu próprio eu e da sua identidade que, como já referi, é insubstituível e tem que ser cuidada.

“A felicidade (…) é um ideal não da razão, mas da imaginação”

– Zygmunt Bauman

A felicidade não é nada mais que um estado de espírito que apenas depende de nós e das nossas perceções. Podem passar os anos que passarem, podem ser escritos mil e um livros sobre felicidade, podem vir 100, 200 ou 300 filósofos com teorias sobre o que é a felicidade que, no fim, o seu verdadeiro significado depende de nós. Quem poderá dizer que um final de tarde num bar de praia, com os pés cheios de areia, o cabelo e o corpo ainda com o sal do mar e uma mesa repleta de bons amigos não é ser feliz? Procurar fazer das pequenas coisas, grandes memórias e aproveitar cada segundo, vivê-lo intensamente, isto é ser feliz, isto é a felicidade. Nem que seja apenas para mim. E é esta busca pelas pequenas coisas que nos trazem felicidade que fazem com que a vida seja uma obra de arte que nós próprios pintamos. E isto, meus amigos, é a arte da vida.


Catarina Freire

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